
Vivemos numa época em que a literacia financeira ocupa cada vez mais espaço nas conversas sobre o próprio futuro e o das famílias. Fala-se da importância de poupar, investir, criar fundos de emergência e preparar a reforma. Cada vez mais aparecem cursos, livros e conteúdos sobre gestão financeira. No entanto, existe um fator que continua a ser frequentemente ignorado por muitas empresas: o impacto financeiro das deslocações diárias para o local de trabalho.
Num contexto em que os preços dos combustíveis permanecem elevados e sujeitos a oscilações constantes, milhares de trabalhadores gastam todos os meses uma parte significativa do seu rendimento apenas para chegar ao emprego e falo de empregos em que as suas tarefas podem ser realizadas a partir de casa, claro. Entre combustível, portagens, estacionamento e desgaste do veículo, não é difícil que esse valor represente entre 100 e 150 € mensais.
A pergunta é simples: o que aconteceria se esse dinheiro permanecesse no bolso do trabalhador?
À primeira vista, 150€ por mês podem não parecer uma quantia extraordinária. No entanto, quando observamos o impacto ao longo do tempo, a realidade muda completamente. Um colaborador que consiga poupar 150€ por mês acumulará 1.800€ por ano. Ao longo de cinco anos, sem sequer considerar qualquer rentabilidade de investimento, o valor ultrapassa os 9.000 euros.
Isto significa que uma simples redução de despesas associadas às deslocações diárias pode representar uma diferença de dezenas de milhares de euros no património futuro de um trabalhador e da sua família.
Num país onde tanto se fala sobre literacia financeira, talvez seja importante reconhecer que ajudar alguém a investir/poupar não passa apenas por ensinar conceitos financeiros. Passa também por criar condições que lhe permitam ter dinheiro disponível para investir/poupar.
É aqui que o teletrabalho assume uma relevância que vai muito além da flexibilidade. Ao eliminar ou reduzir deslocações desnecessárias, nem que seja um ou dois dias, as empresas estão, indiretamente, a aumentar o rendimento disponível dos seus colaboradores. Estão a devolver-lhes recursos financeiros que podem ser direcionados para poupança, investimento, educação dos filhos ou simplesmente para uma maior estabilidade financeira. Mas os benefícios não são apenas económicos. O tempo poupado nas deslocações pode ser utilizado para descanso, exercício físico, formação profissional ou convívio familiar. Um trabalhador que não passa uma ou duas horas por dia no trânsito tende a iniciar a sua jornada mais descansado, mais motivado, com mais paciência e com maior capacidade de concentração!
Empresas com colaboradores menos stressados e mais satisfeitos beneficiam frequentemente de níveis superiores de produtividade, menor absentismo e maior retenção de talento. Naturalmente, o teletrabalho não é adequado para todas as funções nem para todos os setores de atividade. Existem profissões cuja natureza exige presença física. No entanto, nas áreas em que o trabalho remoto ou híbrido é possível, talvez seja tempo de repensar alguns paradigmas.
Se o objetivo coletivo é construir uma sociedade financeiramente mais preparada, então as empresas também têm um papel a desempenhar. Não apenas através de aumentos salariais, mas também através de modelos de trabalho que reduzam custos desnecessários para os seus colaboradores.
Talvez a questão não seja apenas se o teletrabalho aumenta a produtividade. Talvez a questão seja: porque continuamos a ignorar um modelo de trabalho que pode ajudar milhares de pessoas a poupar mais, investir mais e construir um futuro financeiro mais sólido?
Num país que procura melhorar os níveis de literacia financeira, o teletrabalho pode ser muito mais do que uma forma de trabalhar. Pode ser uma ferramenta silenciosa de criação de riqueza!